quarta-feira, 20 de abril de 2011

As reticências de um futuro escuro



A estátua não sabe a lágrima que perde na chuva...

Madrugada de mais um dia que se soma à miserável dádiva e dúvida da vida. O sol ainda não despontou no horizonte e às testemunhais lâmpadas da rua, a única luz que tenho é a emitida pela máquina onde escrevo. Não há velas, candeeiros ou mesmo elétrica à iluminar o resto do ambiente. Insetos pousam na tela como resposta às preces à ausência de uma bússola. O silêncio ecooa pela cidade... Mas não dentro de mim... 
Estou confortavelmente entorpecido.

Não é preciso luz alguma para guiar meus dedos no tablado que tão bem conheço. Não são necessárias luzes brilhantes, nada que meus dedos não conheçam o bailado ou o passo cadenciado da dança do que há em minha mente e na qual apenas eles podem revelar. A boca, por sua vez, cala-se. Apenas a audição é permitida e nela - e por ela - o bom e velho e antigo e único Pink Floyd ressoa aos fones de ouvido (responsáveis por manter o silêncio no resto da noite, o qual não me atrevo a incomodar) como amplificadores potentes ao melhor show de rock já visto pela humanidade; ou seja... o último volume.

À esquerda, um estampido de uma lata abrindo ecooa no escuro. É mais uma a fornecer o álcool a uma mente inquieta. Com esta, já são onze a seguir a linha da reciclagem em alguns minutos. E que reciclagem terei eu ao final da minha? Adubo? Alimento? Pedra? Ou cinza?



O dia ainda dorme ou nem se atreve abrir os olhos para esses lados do mundo. Não há porquê. O silêncio é suficiente. Mas não dentro de mim... O "interno" é inquieto. E quando ouve Pink Floyd a tempestade se agiganta. Tsunami? Que nada! Muito mais que isso. Minhas tormentas não são ondas feitas por pedras em lago. Minha mente e a alma, inquietas, não aceitam destino. Não aceitam apenas escolhas mas, querem respostas às dúvidas que não calam, não mentem, não se entregam. Me estraçalham: rasgam em pedaços o pouco que ainda tenta se consertar.


E cada pedaço é uma resposta: ao que fui, ao que sou, ao que serei. Cada fração que se faz e desfaz em si mesma é a chave à tudo que tenho e que sou: homem, filho, pai. O amigo, o amante, o confidente está a se perder pelo tempo e silêncio das horas passadas ao frio da saudade e distância: ácidos responsáveis por consumir o pouco de vida que ainda há aqui. E, dos amigos, o que esperar se toda a distância está a fazer seu trabalho?
O deserto escaldante presente aqui dentro absorveu o que havia de esperança, miséria e amor. Há só areia e escorre na lenta e compassiva dança do Tempo.

Eu fui. Eu sou. Eu serei.
Fui filho. Sou pai. Serei pó.

Mas o que são filhos senão pedaços de pais despedaçados ou em retalhos clamando por uma linha? Fina linha de costura a formar um Frankstein de duas almas?
O Tempo. Apenas ele possui a resposta.


Enquanto isso continuo...
...minha lenta e decadente graduação de semente em homem, de homem em pó. De pó em nada senão lembranças naqueles que ficam...



Eu ainda procuro encontrar minhas lágrimas depois de tanta escuridão, saudade e ausência daquele que amo. 

Há secas que tiram a água, há outras que secam a alma. 
Há outras que levam os anos para a escuridão do passado e trazem o inverno como presente aos velhos ossos.
Há secas que te tiram as lágrimas da alma e trazem o riso e a esperança.
E você? 
Ainda tem lágrimas? Ou tem certeza do seu futuro?
Ainda nem começou a viagem?

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