sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Mas que importa a diferença?

Há pouco mais de um mês, meu irmão de sangue e alma deu-me uma lição. Demorei para topar com ela até hoje. Até hoje.

Tanto que busquei encontrar minhas respostas a fim de achar a mim mesmo no que tange a acumular riquezas, ter uma boa vida... apenas em "ter". Queria e ainda quero deixar algum bem precioso ao meu filho mas, hoje, percebo que de nada adiantará deixar riqueza alguma se ele não souber dar valor ao que terá em mãos.
Eu quis ter uma boa vida e esqueci-me de viver uma vida digna.

Meu irmão disse para ouvir uma canção payada de Jayme Caetano Braun, chamada "Cemitério de Campanha".

E então, mais uma pequena parte de meu infinito quebra-cabeça se encaixa.
Minha resposta se apresenta:

"Mas que importa a diferença
Entre uma cruz falquejada
E a tumba marmorizada
De quem viveu na opulência?
Que importa a cruz da indigência
A quem já não vive mais,
Se somos todos iguais
Depois da existência?"


Cemitério de Campanha
Jayme Caetano Braun

Cemitério de campanha,
Rebanho negro de cruzes
Onde à noite estranhas luzes
Fogoneiam tristemente
Até o próprio gado sente
No teu mistério profundo
Que és um pedaço de mundo
Noutro mundo diferente

Pouso certo dos humanos
Fim de calvário terreno,
Onde o grande e o pequeno
Se irmanam num mundo só.
E onde os suspiros de dó
De nada significam
Porque em ti os viventes ficam
Diluídos no mesmo pó.

Até o ar que tu respiras
Morno, tristonho e pesado,
Tem um cheiro de passado
Que foi e não volta mais.
A tua voz, são os ais
Do vento choramingando
Eternamente rezando
Gauchescos funerais.

Coroas, tocos de velas
De pavios enegrecidos
Que em Terços mal concorridos
Foram-se queimando a meio
Cruzes de aspecto feio
De alguém que viveu penando
E depois de andar rolando
Retorna ao chão de onde veio.

Mas que importa a diferença
Entre uma cruz falquejada
E a tumba marmorizada
De quem viveu na opulência?
Que importa a cruz da indigência
A quem já não vive mais,
Se somos todos iguais
Depois da existência?

Que importa a coroa fina
E a vela de esparmacete?
Se entre os varais do teu brete
Nada mais tem importância?
Um patrão, um peão de estância
Um doutor, uma donzela?
Tudo, tudo se nivela
Pela insignificância.

Por isso quando me apeio
Num cemitério campeiro
Eu sempre rezo primeiro
Junto a cruz sem inscrição,
Pois na cruz feita a facão
Que terra a dentro se some
Vejo os gaúchos sem nome
Que domaram este Chão.

E compreendo, cemitério,
Que és a última parada
Na indevassável estrada
Que ao além mundo conduz
E aqueces na mesma luz
Aqueles que não tiveram
E aqueles que não quiseram
No seu jazigo uma Cruz.

E visito, de um por um,
No silêncio, triste e calmo,
Desde a cruz de meio palmo
Ao mais rico mausoléu,
Depois, botando o chapéu
Me afasto, pensando a esmo:
Será que alguém fará o mesmo
Quando eu for tropear no Céu?



Quero que meu filho tenha aquilo que mais importa, aquilo que só ele levará daqui - pois caixão não tem gavetas...
Que leve com ele a maior das riquezas: seus valores e virtudes... quando for me encontrar no Rincão do Céu.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Tudo muda?

Passar o tempo sozinho e distante de qualquer contato humano é tarefa árdua, doída, sofrida... Mas também necessária. Porém, é impossível ficar distante de si próprio.
Passo a questionar se isso muda ou mudará algum dia. Entretanto, percebo que a mudança pode sim surgir, quando vem de dentro.
Contrariamente ao que professa o Dr. House, sim, tudo muda. Ou quase tudo?



Todo Cambia
Mercedes Sosa

Cambia lo superficial
Cambia también lo profundo
Cambia el modo de pensar
Cambia todo en este mundo

Cambia el clima con los años
Cambia el pastor su rebaño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño

Cambia el mas fino brillante
De mano en mano su brillo
Cambia el nido el pajarillo
Cambia el sentir un amante

Cambia el rumbo el caminante
Aúnque esto le cause daño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño

Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia

Cambia el sol en su carrera
Cuando la noche subsiste
Cambia la planta y se viste
De verde en la primavera

Cambia el pelaje la fiera
Cambia el cabello el anciano
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño

Pero no cambia mi amor
Por mas lejo que me encuentre
Ni el recuerdo ni el dolor
De mi pueblo y de mi gente

Lo que cambió ayer
Tendrá que cambiar mañana
Así como cambio yo
En esta tierra lejana

Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia

Pero no cambia mi amor...



Tudo muda.
A lagarta muda.
O dia muda.
O tempo muda.
Tudo muda, inclusive aquele que acredita.
Até a Morte muda, torna-se Vida.




"Pero no cambia mi amor

Por mas lejo que me encuentre
Ni el recuerdo ni el dolor
De mi pueblo y de mi gente"



Gracias, Mercedes, vaya con Dios...

domingo, 25 de outubro de 2009

Mudanças... crescimento... evolução (parte II)


Depois de algum tempo refletindo sobre o que é mudar, o que é crescer, o que é evoluir, deparo-me com a resposta a uma das infinitas perguntas de minha lista. Geração após geração, século após século, procuramos algo passível de nos dar a eternidade, a imortalidade.
Histórias sobre a vida eterna com os vampiros; a imortalidade dita no cinema com os highlanders... Tudo, absolutamente tudo isso é desnecessário.

Meus olhos ensombrados não me permitiram ver o que era tão óbvio.
E o que dizer, então, da minha razão?
Minha visão, escassa, não percebia onde estava a chave dessa proeza chamada "eternidade": o legado.

Não por coincidência (ou talvez por coincidência, mas não creio) ouvi a música do verdadeiro "Quarteto Fantástico": Crosby, Stills, Nash & Young e foi onde as peças de meu quebra-cabeça encaixaram.


Teach Your Children
Crosby, Stills, Nash & Young

Ensine suas crianças

Você que está na estrada
Deve viver sob um código
Para então se tornar você
Porque o passado é só uma despedida

Ensine bem suas crianças,
Porque o inferno dos pais delas vai passando devagar
E alimente o sonho delas
O que elas escolherem, aquele que você ficará sabendo

Nunca pergunte a elas por que, se elas dissessem, você choraria
Então só olhe pra elas e acene e fique sabendo que elas te amam

E você, na sua juventude,
Não pode saber os medos que cresceram nos mais velhos
Então ajude eles com a sua juventude,
Eles procuram a verdade antes de morrerem.

Ensine bem seus pais,
O inferno das crianças deles vai passando devagar,
E alimente o sonho deles
O que eles escolherem, aquele que você ficará sabendo.

Nunca pergunte a eles porque, se você soubesse, você choraria,
Só olhe para eles e acene e fique sabendo que eles amam você.


Somente hoje compreendo os porquês não haver tido conversas com meu pai e avô materno. Eles nunca quiseram me perguntar nada para que não chorassem. Um escolheu um caminho. Outro, calou-se mesmo presente.
Escolheram a liberdade para que eu me tornasse o que quisesse ser. E assim o permitiram.
Deixaram em mim o legado.

Um, não terei mais como dizer obrigado a não ser por minhas preces.
Quanto ao outro, ainda há tempo de exprimir a gratidão - embora a distância já tenha feito seu trabalho há tantos anos - por ter mostrado o significado da longitude de uma escolha.
Boa ou má? Apenas o Tempo dará minha resposta.


Quanto a mim?
Não farei perguntas para não chorar. Apenas acenarei e deixarei que saibam o quanto os amo.
Eles já são imortais.

A imortalidade existe e se chama "legado".
Eu ensinarei ao meu filho. Ele ensinará ao dele. E assim o ciclo permanece.
Se minhas mãos o ampararem rumo ao incerto hoje, amanhã tenho a certeza de que me ajudará a encontrar a Verdade antes da Morte.


Pó & Chuva, Barro & Distância


"Todos vão para um lugar; todos foram feitos do pó, e todos voltarão ao pó." (Eclesiastes 3:20)




Pensando no texto bíblico, cientificamente, preciso discordar da afirmação. Nesta vida, pelo menos, não fui feito de pó mas, sim, de duas células. Por enquanto sou um amontoado de células e uma alma, ungidas com um sopro de Vida. Entretanto no futuro, sim, então concordo: serei um amontoado de pó e memórias que deixarei aos quais fiz alguma diferença em suas vidas. Nada mais.


Por enquanto, vejo-me mais como uma mistura de pó e chuva, barro e distância.
Por que?
Muito simples, o sopro de Vida - para mim - nada mais é do que pó e chuva, barro e distância misturados na mais perfeita harmonia.

O pó acumulamos em nós mesmos durante o tempo que passamos aqui. É o resultado das "experiências" mal resolvidas ainda postas sobre nossos ombros por nós mesmos... num quase infinito e lento caminhar pesaroso.




A chuva, o bálsamo capaz de purificar nossa impureza, além de regar a terra mostra que tudo passa, renasce ou brota. E, no fim, estamos "limpos" novamente.



- "Não pode chover o tempo todo." - segredou o personagem Eric Draven em O Corvo...

Então conhecemos a fé. As vezes fraquejamos, outras vezes somos fortes. Ao fim de tudo, somos o eqüilíbrio entre esses dois extremos. Mas ainda assim procuramos por mais fé...
E assim seguimos, novamente, para outra jornada nas estradas empoeiradas do nosso caminho.



E no recomeço, encharcados, somos refeitos em amálgama de pó e chuva. Sentimo-nos pesados como se vários quilos de barro aparecessem "misteriosamente" em nossas pernas e costas...
Continuamos...
Deixamos mais passos para trás.
E, dessa forma, produz-se a distância...
Distância daquele que éramos e daquele que somos agora.
Distância daqueles que amamos e já se foram por outros caminhos.


"Se as pessoas que amamos são tiradas de nós, o meio de mantê-las vivas é nunca deixar de amá-las. Prédios queimam, pessoas morrem. Mas o verdadeiro amor é para sempre". (O Corvo)


Hoje, pergunto-me se devo seguir a mesma estrada sonhando e aguardando outro horizonte ou tomo outra direção. Estaciono, no meio da minha própria estrada e aguardo o Tempo tomar sua decisão.
Não ando, apenas espero.

As vezes, esperar com paciência e perseverança é melhor que agir no ímpeto e seguir por caminhos não tão bons. Já cometi esse erro e aprendi: a razão deve sobrepor-se ao arrebatamento.



Sigo e aceito minha mistura de pó e chuva, barro e distância sem perder a esperança de ainda ver um horizonte onde eu possa, finalmente, ser feliz e descansar meu corpo.
E se bem sei, esse descanso será justo e necessário até o começar da próxima jornada na qual todos tomaremos parte um dia...



Mas para esta eu não estou pronto ainda.
Eu serei feliz primeiro.

"Eu sei que nasci
E sei que vou morrer
O entre isso é meu"
(I Am Mine - Pearl Jam)

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Deixe-me ir... preciso andar...

Deparo-me com meus primeiros longos fios de cabelo branco e não me espanto nem me amedronto. É o andar do Tempo abatendo-me, aos poucos, nesta estrada a qual ainda tenho alguns longos quilômetros a percorrer. Meus pés não se cansam e nem se curvam minhas asas...
Continuo... Visto meu casaco e enfarinho minha cara...
Rio e sigo como o palhaço da obra de Leoncavallo... Eis a equação de meus erros.


"Recitar, enquanto tomado pelo delírio
não sei mais aquilo que digo e aquilo que faço.

Todavia é necessário. Esforça-te! Vai!
És tu talvez um homem? Ah! ah! ah! ah! ah!
Tu és Palhaço.

Veste o casaco e a cara enfarinha.
O povo paga e quer rir aqui.

E se Arlequim te rouba a Colombina,
ri Palhaço e cada um aplaudirá.
Muda em piadas o espasmo e o choro,
Numa careta o soluço e a dor.

Ah! Ri Palhaço, sobre o teu amor partido.
Ri da dor que te envenena o coração!"



Mas de tudo, sempre tudo, embora falte ainda alguma coisa... a "Colombina"...
...deixe-me ir, preciso andar...

Preciso me encontrar
Cartola

Deixe-me ir preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar

Quero assistir o sol nascer
Ver as aguas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer quero viver...

Deixe-me ir preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar

Se alguém for vir perguntar
Diga que eu só vou voltar depois que eu me encontrar...

Quero assistir o sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer quero viver...

Deixe-me ir preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar