sábado, 25 de novembro de 2017

O nome da rosa...


Não me restam dúvidas: a Literatura pode, de fato, dar as respostas a aqueles que as procuram. 
Numa das madrugadas desta semana, obtive mais uma que, confesso, jamais havia percebido ter sido a causa de 24 anos de dores.




Todos os dias, desde a aurora da minha juventude, quando passei a dedicar minhas horas às leituras da Filosofia, tenho questionado as minhas certezas. Não há um dia sequer no qual este ritual não se repita.
Entretanto, somente beirando as quatro décadas de passagem pela crosta desse planeta, deparei-me com a causa de um - apenas um - dos meus tormentos.

Jamais havia tido um sonho tão real como o daquela madrugada. Enquanto eu conduzia um cavalo pela encosta de um penhasco, próximo do mar, eu a enxerguei a alguns passos de distância, próxima a uma curva. Estava imóvel, com o mesma roupa que a vi pela última vez. Ao me aproximar, acenou um adeus com a mão esquerda e seu corpo começou a se desfazer ao vento. Seus pedaços viraram cinzas e tomaram o céu.
Em vão, minha mão estendeu-se sem, sequer, conseguir tocá-las.

1993 - O início.

Quando se tem 15 anos e uma miríade de possibilidades perante a vida, não é comum refletir profundamente sobre os próprios atos e, principalmente, nas consequências que acarretarão por toda uma vida. Eu não fugi a essa regra.

Na minha escola, havia uma menina de origem humilde, bonita, magra, de cabelos negros lisos e compridos - os olhos eram mais negros ainda - que contrastavam com a alvura da pele, sempre vestida com o mesmo macacão jeans azul. Éramos de turmas diferentes, mas do mesmo ano, e estudávamos em salas próximas. Demorou algum tempo para que eu a notasse mas, por sua vez, eu não passei despercebido para ela. Foi preciso que um colega me alertasse o quanto era fitado pelos seus olhos.
Certa tarde, na fila da cantina, começamos a conversar e, então, em quase todos os intervalos (antigamente chamávamos de recreio) falávamos sobre os mais diferentes e absurdos assuntos do repertório da adolescência. A beleza que eu não enxerguei - e anos mais tarde vivi procurando - estava dentro dela. Não possuía o "padrão de beleza" física que me atraía, até porque eu já estava ressentido com as "desilusões" amorosas recentes até então. Naquela época, havia começado a jogar xadrez e era só esse o meu interesse no mundo.

Numa destas tardes, as cozinheiras da escola fizeram chocolate quente, daqueles encorpados que dá gosto de beber. Daquele tipo que só as avós sabem fazer para os netos nos dias frios de inverno, com o carinho característico de uma avó e o capricho de um profissional. Estava quente, mas isso não impediu que eu sorvesse o meu tão rapidamente. Eu já sabia que não poderia repetir pois, era uma regra.
Nós nos sentamos próximos e já com a minha caneca vazia, a alertei para que aproveitasse cada gole da sua. Ela bebeu um pequeno gole e o ofereceu a mim:

- Hummm... Está bem bom mesmo! 
- Pode ficar com o meu.

Lembro que, dentro de mim, metade dizia para aceitar e a outra, para negar a gentileza do presente.

- Pega. Tu gostas mais do que eu, pega - disse-me ela.

E no meu gesto egoísta, agradeci e o bebi como deveria ter feito como o meu. Enquanto bebia, fui observado o tempo todo. Mal sabia eu estar em frente a alguém que sentia mais e desejava mais a minha "felicidade" do que a sua própria, com uma simples caneca de chocolate quente... Não enxerguei o quanto aquela atitude era revestida de um carinho e sentimentos maiores do que propriamente o da amizade.

Dias depois, ela revelou a intenção que havia em seu coração: há muito receava dizer querer namorar comigo.

Lembro que, pela primeira vez, deixei a minha estupidez tomar a minha razão e respondi recusando a proposta, alegando um falso motivo. Na verdade, eu sentia vergonha da sua pobreza mas mal sabia que ali, o verdadeiro pobre era eu. Não fui sincero em dizer o que realmente eu sentia. Pensei que, mentindo, seria "menos pior" para ambos. Ledo engano o meu...

Mesmo com a minha recusa, continuamos nos encontrando no intervalo das aulas. Pouco tempo depois mudei de escola e, antes do fim do semestre, recebi um bilhete dela na última vez que nos encontramos, com a condição de que fosse lido apenas quando eu chegasse em casa. Depois disso, não houveram mais conversas, nem troca de olhares, nem gentilezas. Nunca mais nos vimos.

Naquele pedaço de papel pautado, assinado com a marca do batom de um beijo, estava escrito:

"Segue teu coração, pra onde quer que ele aponte."

1994 - 2017




A vida encontra meios de ensinar através de outras mãos aquilo que não aprendemos. Não importa o quanto tenhamos sido transparentes, sejamos fiéis, honestos, éticos... Nada disso vale qualquer coisa mesmo que sempre tenhamos falado a verdade para alguém que pensamos conhecer a ponto de querer construir uma vida juntos.

Passei quase 25 anos recebendo o mesmo veneno que dei a ela, de absolutamente todas as mulheres com quem mantive um relacionamento. Todo esse tempo, jamais enxerguei em mim mesmo o mal que havia feito a apenas uma. Não percebia o quanto a cada vez que eu dava a Verdade a quem quer que fosse, mais a Verdade se afastava de mim pois, aqui dentro, eu nunca havia deixado de carregar essa mentira. 




E parafraseando a obra de Umberto Eco...

... eu nunca mais a vi, nem nunca soube nada mais dela. Além do mais, agora que sou um homem velho, confesso que de todos os rostos do passado, o que vejo mais claramente é a da moça da qual nunca mais lembrei nestes vários longos anos. Ela foi a primeira que me ofereceu um amor sincero, embora eu não consiga lembrar seu nome...




terça-feira, 14 de novembro de 2017

Embriagai-vos





Embriagai-vos!
 

Deveis andar sempre embriagados. 
Tudo consiste nisso: eis a única questão. 
Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo, 
que vos quebra os ombros, vergando-vos para o chão, 
é preciso que vos embriagueis sem descanso.
 

Mas, com quê? 
De vinho, de poesia ou de virtude. 
Como quiserdes. 
Mas, embriagai-vos.

E se, alguma vez, nos degraus de um palácio, 
na verde relva de uma vala, na solidão morna de vosso quarto, 
despertardes com a embriaguez já diminuída ou desaparecida, 
perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, 
a tudo o que foge, a tudo que geme, a tudo o que rola, 
a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que horas são. 
E o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio vos responderão:

- É a hora de vos embriagardes! 
Para não serdes escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos! 
Embriagai-vos sem cessar! 
De vinho, de poesia ou de virtude! Como quiserdes!

Charles Baudelaire, Petits poémes en prose, 1869.

domingo, 12 de novembro de 2017

Ria da dor que lhe envenena seu coração





Recitar! ... enquanto tomado pelo delírio
Eu não sei o que eu estou dizendo mais
E o que eu faço!
E ainda... é dever... esforce-se!
Bah! Você não é um homem?

Sê você palhaço!
Vista sua fantasia
Passe pó no rosto
Aqui as pessoas pagam e querem rir
E se Arlequim
Roubar sua Colombina
Ria, oh palhaço, e todos aplaudirão!
Transformar em risos
Os espasmos e o choro
Em uma careta, o soluço
e a dor - Ah!

Ria, Palhaço
No seu amor em pedaços
Ria da dor que lhe envenena seu coração



Ainda que me afogue na dor, mesmo que o coração bombeie o veneno por todo meu corpo, meu riso não desvanecerá.







Thoreau



"O que será que, às vezes, tanto nos dificulta determinar o destino a dar aos nossos passos? Creio na existência de um magnetismo sutil em a Natureza, o qual, se cedermos inconscientemente, nos levará ao caminho acertado. Não nos é indiferente seguir este ou aquele caminho. Há o caminho certo; mas a negligência e a estupidez muito nos sujeitam a seguir o caminho errado. "
Henry David Thoreau

Quando perdi meu ponto de equilíbrio fora de mim






[...] Longe demais
Do cais do porto
Perto do caos
Meu coração é um porta aviões
Perdido no mar esperando alguém pousar
Meu coração é um porto sem endereço certo
É um deserto em pleno mar.



Como seguir adiante, mirando o horizonte, quando perdemos o rumo? Quando se perde o porto seguro, antes a baliza de uma nova vida, deixando de trazer a segurança a um espírito cansado: o que resta, afinal?

Começo a entender e, talvez, ultrapassar o limite da sanidade em direção à fronteira da loucura. É possível acreditar em si e nos outros depois de haver-se despido de todas as defesas erguidas durante os anos? E quando as mãos não alcançam a faca cravada pelas costas, mas o coração ainda teima em bater, qual o próximo passo? O pior golpe não é, e nunca foi, aquele desferido por um inimigo mas, infelizmente, aquele que é dado por quem está ao teu lado.

Minha consciência repousa em um sono justo, não me bate nem castiga. Mas o peito... Aperta-se a cada minuto. A mente questiona a cada segundo: como seguir em frente?

Durante anos, suportei a inúmeras calúnias, injúrias e acusações de coisas das quais jamais cometi. Todas as vezes, dormi tranquilo. Jamais perdi meu sono mesmo em frente a tantas injustiças. 
Hoje, perco a minha paz e sou meu próprio tormento, por algo que não fiz: a dor que me tortura é filha da Verdade que me foi roubada.






sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Como se retoma o curso de uma antiga vida...



"Como se retoma o curso de uma antiga vida...
Como se segue em frente...
Quando, no íntimo,
Começa-se a entender...
Que não há volta?

Há certas coisas
Que o tempo não pode curar.
Algumas feridas são tão profundas...
que nos acompanham para sempre."
Frodo Baggins, Lord of The Rings - The Return of the King

Cinco anos se passaram desde minhas últimas palavras por aqui. Cinco seres já nasceram e pereceram em meu peito, todos iguais e diferentes a mim. As incógnitas permanecem... Gigantes, como nunca. Mais aterrorizantes e sombrias como jamais foram.
Desde 2012, águas passaram movendo moinhos e, hoje, ruínas são somente conservadas pelo Tempo. Algumas pontes, antes lentamente construídas, estão desfeitas. A correnteza de algumas enxurradas abalou as estruturas, até então, sólidas.

Acenei efusivamente a cada um dos meus falecimentos, ao deixar para trás alguém já velho e perecido, despedi-me sem mágoas, sem ressentimentos. Deixei para trás as lágrimas, mas esqueci-me - todas as vezes - de desfazer-me dos lenços. A experiência ensina o quanto algumas variáveis são constantes, noutras o quanto são certas.

Levantei silenciosamente a cada renascimento, e ao recomeçar a subida já sabia que a "escada repousa no vento sussurrante". Entretanto, em nenhuma delas encontrei a minha Escada para o Paraíso. E de novo e outra vez, precisei reerguer a cabeça, alinhar a coluna e olhar para cima. Mesmo sabendo das intempéries, continuei.

Velhos fantasmas, até então desaparecidos, heis que ressurgem no emaranhado das teias da vida quando, onde e de quem menos se espera. E de tantas vezes acometido da mesma sina, pensava já ter sido vacinado. Ledo engano.

O preço que se paga pela Verdade causa cicatrizes, deixa tantas marcas... Mas prefiro, sem sombra de dúvidas, as chibatadas da tristeza ao afago do remorso.
Até mesmo o Perdão precisa do Tempo...

Há poucos dias, morri mais uma vez. Mas desta vez, chorando, me refaço.




"Meu caro Sam...
Nem sempre é possível ficar dividido em dois.
Você terá de ser um e inteiro por muitos anos.
Ainda tem muito para desfrutar, para ser e para fazer.
Sua parte na história vai continuar."
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Bem... estou de volta.