sábado, 23 de abril de 2011

Em poucas palavras: Você é Feliz?



 
Do dicionário: feliz
(latim felix, -icis)
adj. 2 gén.
1. Que tem ou revela felicidade, contentamento. = alegre, contente, radiante ≠ triste
2. Que causa felicidade. ≠ triste
3. Que tem muita sorte. = afortunado, ditoso, sortudo ≠ azarado
4. Que se sente satisfeito, realizado. = contente ≠ descontente, insatisfeito
5. Que é favorável. ≠ desfavorável
6. Abençoado, bendito.
7. Que foi bem imaginado ou bem executado. = conseguido
8. Que teve sucesso.


O Tempo, irrefutável, trata de levar a todos no mesmo compasso para os mesmos lugares: túmulo e memória.

Já há algum tempo, eu trintagenário, começo a questionar e me questionar - principalmente - a respeito daquilo que tenho como valores. Que são? O que são? Quais são? E o que de verdadeiro representam?

Ainda bem que estive vivo esse tempo todo e pude, em 1996, presenciar o surgimento de um disco unplugged da MTV com a banda que tanto gostava desde as épocas do extinto Hollywood Rock, no início dos anos 90. Naquela época, meu inglês ínfimo, assim como as armas de destruição em massa iraquianas... Sabia o básico e algum pouco do que houvera aprendido lendo uma bíblia em inglês desde os 8 anos de idade. SIM! A Internet engatinhava naquela época! Mas eu não a tinha sequer acesso, tampouco computador.
Mas... 1996 foi um ano ímpar. Depois de esperar ansiosamente pelo último disco do Pink Floyd... uma pérola surge: Alice in Chains Unplugged. Inexplicável! Simplesmente, indescritível para um piá que adorava o grunge, o metal e disso só havia ouvido Nirvana da mesma maneira.

E ao ouvir a primeira "faixa" do cd, me deparo com Nutshell...
Corri procurar meus livros, dicionários e tratei de traduzí-la. Foi uma tarefa árdua, quase hercúlea. Porém, o pouco que consegui, denotou ser esta uma canção de poucas palavras mas de grande profundidade em seu conteúdo...

Alice in Chains - Nutshell

Nós perseguimos mentiras mal impressas
Nós encaramos o caminho do tempo
E eu ainda luto, e eu ainda luto
Esta batalha toda sozinho
Ninguém para chorar, nenhum lugar para chamar de lar
Meu dom pessoal é estuprado
Minha intimidade é estuprada
E ainda acho, e ainda acho
Repetindo em minha cabeça
Se não posso ser eu próprio, eu me sentiria melhor morto.


Desde então, passei a me perguntar se eu era feliz. Se minhas verdades não haviam sido fruto de estupros daquilo que realmente é a Verdade. Se tudo o que aprendi não são mentiras, lapidadas por humanos ínfimos e tementes ao poder do Tempo? Dúvidas... dúvidas e mais dúvidas.


 

Foi então, que o meu ídolo adolescente, não suportando mais... entrega-me uma resposta: "The pain is more than you can handle. It’s the worst pain in the world." (A dor é maior do que você pode aguentar. É a pior dor do mundo).

Layne Stanley pereceu no início de abril de 2002. 
Desde 1996 uma de minhas perguntas foi respondida e até agora mantem-se inabalada.
Eu ainda não sei o que é felicidade, mas sei que, o que me "vendem", não é ser feliz.
Se não posso ser eu próprio, eu me sentiria melhor morto.


quarta-feira, 20 de abril de 2011

As reticências de um futuro escuro



A estátua não sabe a lágrima que perde na chuva...

Madrugada de mais um dia que se soma à miserável dádiva e dúvida da vida. O sol ainda não despontou no horizonte e às testemunhais lâmpadas da rua, a única luz que tenho é a emitida pela máquina onde escrevo. Não há velas, candeeiros ou mesmo elétrica à iluminar o resto do ambiente. Insetos pousam na tela como resposta às preces à ausência de uma bússola. O silêncio ecooa pela cidade... Mas não dentro de mim... 
Estou confortavelmente entorpecido.

Não é preciso luz alguma para guiar meus dedos no tablado que tão bem conheço. Não são necessárias luzes brilhantes, nada que meus dedos não conheçam o bailado ou o passo cadenciado da dança do que há em minha mente e na qual apenas eles podem revelar. A boca, por sua vez, cala-se. Apenas a audição é permitida e nela - e por ela - o bom e velho e antigo e único Pink Floyd ressoa aos fones de ouvido (responsáveis por manter o silêncio no resto da noite, o qual não me atrevo a incomodar) como amplificadores potentes ao melhor show de rock já visto pela humanidade; ou seja... o último volume.

À esquerda, um estampido de uma lata abrindo ecooa no escuro. É mais uma a fornecer o álcool a uma mente inquieta. Com esta, já são onze a seguir a linha da reciclagem em alguns minutos. E que reciclagem terei eu ao final da minha? Adubo? Alimento? Pedra? Ou cinza?



O dia ainda dorme ou nem se atreve abrir os olhos para esses lados do mundo. Não há porquê. O silêncio é suficiente. Mas não dentro de mim... O "interno" é inquieto. E quando ouve Pink Floyd a tempestade se agiganta. Tsunami? Que nada! Muito mais que isso. Minhas tormentas não são ondas feitas por pedras em lago. Minha mente e a alma, inquietas, não aceitam destino. Não aceitam apenas escolhas mas, querem respostas às dúvidas que não calam, não mentem, não se entregam. Me estraçalham: rasgam em pedaços o pouco que ainda tenta se consertar.


E cada pedaço é uma resposta: ao que fui, ao que sou, ao que serei. Cada fração que se faz e desfaz em si mesma é a chave à tudo que tenho e que sou: homem, filho, pai. O amigo, o amante, o confidente está a se perder pelo tempo e silêncio das horas passadas ao frio da saudade e distância: ácidos responsáveis por consumir o pouco de vida que ainda há aqui. E, dos amigos, o que esperar se toda a distância está a fazer seu trabalho?
O deserto escaldante presente aqui dentro absorveu o que havia de esperança, miséria e amor. Há só areia e escorre na lenta e compassiva dança do Tempo.

Eu fui. Eu sou. Eu serei.
Fui filho. Sou pai. Serei pó.

Mas o que são filhos senão pedaços de pais despedaçados ou em retalhos clamando por uma linha? Fina linha de costura a formar um Frankstein de duas almas?
O Tempo. Apenas ele possui a resposta.


Enquanto isso continuo...
...minha lenta e decadente graduação de semente em homem, de homem em pó. De pó em nada senão lembranças naqueles que ficam...



Eu ainda procuro encontrar minhas lágrimas depois de tanta escuridão, saudade e ausência daquele que amo. 

Há secas que tiram a água, há outras que secam a alma. 
Há outras que levam os anos para a escuridão do passado e trazem o inverno como presente aos velhos ossos.
Há secas que te tiram as lágrimas da alma e trazem o riso e a esperança.
E você? 
Ainda tem lágrimas? Ou tem certeza do seu futuro?
Ainda nem começou a viagem?