terça-feira, 14 de novembro de 2017

Embriagai-vos





Embriagai-vos!
 

Deveis andar sempre embriagados. 
Tudo consiste nisso: eis a única questão. 
Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo, 
que vos quebra os ombros, vergando-vos para o chão, 
é preciso que vos embriagueis sem descanso.
 

Mas, com quê? 
De vinho, de poesia ou de virtude. 
Como quiserdes. 
Mas, embriagai-vos.

E se, alguma vez, nos degraus de um palácio, 
na verde relva de uma vala, na solidão morna de vosso quarto, 
despertardes com a embriaguez já diminuída ou desaparecida, 
perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, 
a tudo o que foge, a tudo que geme, a tudo o que rola, 
a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que horas são. 
E o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio vos responderão:

- É a hora de vos embriagardes! 
Para não serdes escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos! 
Embriagai-vos sem cessar! 
De vinho, de poesia ou de virtude! Como quiserdes!

Charles Baudelaire, Petits poémes en prose, 1869.

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