Embriagai-vos!
Deveis andar sempre embriagados.
Deveis andar sempre embriagados.
Tudo consiste nisso: eis a única
questão.
Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo,
que vos quebra os ombros, vergando-vos para o chão,
é preciso que vos embriagueis sem
descanso.
Mas, com quê?
Mas, com quê?
De vinho, de poesia ou de virtude.
Como quiserdes.
Mas, embriagai-vos.
E se, alguma vez, nos degraus de um palácio,
E se, alguma vez, nos degraus de um palácio,
na verde relva de uma vala,
na solidão morna de vosso quarto,
despertardes com a embriaguez já
diminuída ou desaparecida,
perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao
pássaro, ao relógio,
a tudo o que foge, a tudo que geme, a tudo o que
rola,
a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que horas são.
E o
vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio vos responderão:
- É a hora de vos embriagardes!
- É a hora de vos embriagardes!
Para não serdes escravos martirizados do
Tempo, embriagai-vos!
Embriagai-vos sem cessar!
De vinho, de poesia ou de
virtude! Como quiserdes!
Charles Baudelaire, Petits poémes en prose, 1869.


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